quarta-feira, 6 de abril de 2016

Mudam-se os tempos...

Faz-me um bocadinho de confusão a forma como os miúdos de hoje são sobrecarregados e sobreestimulados. É ATL, escola, explicações, um desporto, curso de línguas e ainda música. Vejo crianças a saírem de casa às 7h e a chegarem depois das 20h, todos os dias. Entre jantar, tomar banho e fazer trabalhos de casa, pouco tempo sobra para brincar e para estarem com os pais. Isto dia após dia após dia. Acho um exagero. Parece que as crianças têm que ser boas em tudo, experimentar tudo, ter mil ocupações. Como se andar na escola e brincar não fosse já trabalho suficiente para crianças tão pequenas. 

Acho que sim, que as crianças devem ter hobbies e que o desporto, a música e saber mais do que a língua materna é ótimo! Mas é preciso não cair no exagero. Basta deixarem a criança escolher uma ocupação extra aulas e pronto. É como se uma criança que não tem estas atividades extra todas fosse uma criança com pouco potencial de desenvolvimento, vai crescer para ser um zé ninguém, coitadinho que nunca fez nada além da escola. 

No meu tempo nem sequer para o infantário fui. Fiquei em casa da minha avó até entrar na escola por opção dos meus pais, que acharam mais importante eu estar aos cuidados de uma pessoa da família e com a convivência de primos das mais variadas idades do que ser entregue a um infantário só porque sim. Antigamente os infantários eram mais para meninos que não tinham quem tomasse conta deles e não tanto uma etapa profundamente essencial para o desenvolvimento. Não digo que não se deva ir para os infantários antes da escola, acho que é uma enorme fonte de desenvolvimento e de socialização. Mas não é a única. 
Eu nunca fiz desporto em criança, nem aprendi nenhuma língua a não ser na escola e muito menos aprendi a tocar um instrumento que não fosse a típica flauta. Ia para casa da minha avó de manhã, ia para a escola depois e à hora de saída ia para casa fazer "os deveres". Depois disso brincava, dava umas corridas no jardim, passava tempo com os meus primos e irmão e, depois do jantar, era banho e cama. Não fiquei traumatizada. Não tive notas menos boas. Não deixei de ter amigos. Cresci bem, com bons resultados, com um núcleo saudável de amigos e cresci, acima de tudo, feliz. Feliz por ter o tempo e atenção da minha avó, dos meus pais quando chegava a casa e, acima de tudo, feliz por ter sido criança quando era tempo de ser criança. Depois a vida complica. Chega o segundo ciclo, as mil disciplinas, os horários cheios e acaba-se o tempo para tudo. Depois há exames, há médias, há entradas na faculdade e os dias não voltam a esticar. Mas ao menos levamos as lembranças das brincadeiras, dos dias passados em casa com os pais, dos bons momentos de criança. Isso, para mim, é muito mais importante do que ter no currículo que se praticou ginástica desde os 3 anos de idade, mas nunca se teve tempo de correr na rua, sujar os pés de terra, esfolar os joelhos e cair na cama depois das brincadeiras com os pais. 

5 comentários:

  1. Eu também nunca fui para o infantário, tive numa ama, pois nós vivíamos no Algarve e a minha família é toda do Norte do país. Depois, por volta dos 4 anos estive com a minha mãe porque ficou desempregada e aí também ganhei um irmãozinho. Fiquei com ela até ir para a escola, e lembro-me que eu era das poucas crianças que não conhecia ninguém, pois os restantes tinham estado no infantário. Também nunca andei em ATL, ia para uma ama, que hoje em dia, é uma segunda mãe para mim e para todos os meninos que ela tomava conta e eramos tão felizes! Brincamos tantos, tive uma infância feliz. Andei num desporto, o Judo, mas era apenas 1 hora por dia, durante 2 dias por semana. Por isso nunca senti grande pressão. E lá por não andar em ATL's, cursos, explicações, que não fui boa aluna, pelo contrário. Este testamento todo, para dizer que hoje em dia, a sociedade exige demais das pessoas, a começar pelos pais. Beijinho,
    http://bloguerosapt.blogspot.pt/

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  2. Nunca estive no infantário nem pré, nem aprendi inglês, nem andei no ballet nem nada disso. Eramos três raparigas , todos dos anos 80, todas na escola, todas em desenvolvimento, não havia dinheiro para isso. Era brincar umas com as outras no quintal ou com os vizinhos, cair até levar pontos no joelho!!

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  3. São responsabilidades a mais para gente tão pequenina é verdade. E brincar que é tão importante e eles já quase não brincam. A vida de uma criança antigamente era bem mais fácil. Escola de manhã ou de tarde e brincadeira o resto do dia :))

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  4. Eu tenho rancor aos meus pais por não me terem inscrito no ballet em pequenina, gostava de ter sido bailarina :P À parte disso, sempre fiz desporto extra-curricular, até ao 12º ano. Mas também brinquei muito, e nunca andei em ATL's ou em mais que uma ocupação extra-curricular simultaneamente. As próprias aulas já ocupam tanto tempo!

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  5. Entendo bem o que dizes porque vejo os exemplos dos filhos de muitas colegas minhas que têm os dias super preenchidos. Eu acho essas atividades importantes, claro, mas concordo que também tem de haver tempo para se ser criança e brincar, até porque hoje em dia a carga horária das próprias aulas parece-me bem maior que a que tinha na minha altura...

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