segunda-feira, 2 de julho de 2018

Vidas

Nunca fui daquelas crianças/adolescentes que pedem muito, que querem tudo o que os outros têm. Claro que tive a fase das birras, já fiz coisas das quais me arrependo agora que olho para trás mas, regra geral, sempre fui uma criança consciente das limitações impostas na nossa vida familiar. Os meus pais não me podiam dar tudo o que eu queria e estava tudo bem com isso. Agora que sou adulta e giro o meu próprio dinheiro, também tenho essa consciência de que não é possível ter/fazer tudo aquilo que eu gostaria e está tudo bem com isso também. Há dias em que custa um bocado saber que trabalho tanto e sou tão responsável, tão regrada, e ainda assim não consigo obter certas coisas ou que sinto que o mundo é injusto porque eu esforço-me tanto e corro sempre atrás, mas nunca vou poder ter/fazer certas coisas e para outras pessoas parece que tudo aparece de mão beijada. Há dias de desalento, como é óbvio. Ainda assim, convivo bem com as impossibilidades da minha vida. Se quero muito uma coisa, luto para a conseguir, poupo, trabalho, crio objetivos, sacrifico algumas coisas, sei definir prioridades. Seria melhor se não precisasse de pensar nessas coisas todas e poder ter/fazer aquilo que me apetece como muitas pessoas que conheço, como é óbvio, mas é esta a minha vida e aprendi a lidar com isso.

O que me deixa estupefacta é como algumas pessoas são incapazes de entender que, para pessoas na mesma situação que eu, não basta simplesmente querer e pronto. Ou fazer um esforcinho. Eu não posso acompanhar todos os meus amigos em todas as viagens, todas as saídas, todos os planos. Não há espaço no meu orçamento para isso. E, mesmo que haja, quase sempre existem outras prioridades. Entre uma saída ou um dos meus objetivos de vida, claro que vou escolher os meus objetivos. Nem há comparação possível. Surpreende-me que muitas pessoas não consigam perceber isso, que pensem que, porque para eles dá, tem que dar para todos. Cada pessoa tem a sua forma de vida, as suas contas, os seus salários, as suas prioridades. Se para alguns a prioridade é poupar para viajar, para outros pode ser poupar para comprar carro ou casa ou nem poupar de todo porque não precisam. Cada um tem os seus sonhos, as suas prioridades e os seus orçamentos. A minha vida não tem que servir de exemplo para outros, da mesma forma que eu não posso reger-me pela vida dos outros. Acho maravilhoso que algumas pessoas possam dar-se ao luxo (porque para mim é um luxo) de irem de férias, de saírem todos os fins de semana, de irem a sítios caros e todas essas coisas. Para mim não dá nem é sequer prioridade ou objetivo de vida. Só gostava que essas pessoas percebessem que um não é um não, não vale a pena virem com "ah mas é só desta vez", "oh mas faz lá o esforço" , "se eu consigo, tu também consegues", porque já foi tudo pensado e repensado ao cêntimo. 

5 comentários:

  1. Nunca tive nada dado. Tive sempre de trabalhar para ter tudo o que tenho e os meus pais não são pessoas propriamente com dificuldades financeiras... mas isso só nos faz umas pessoas melhores e que dão valor às coisas!

    R: Epa gostei do concerto porque eu gosto muito da Katy Perry. Teve tempos mortos e isso não gostei. tanta mudança de roupa chateia, mas adorei as partes em que ela tava a cantar. E já sabia que ela não consegue dançar e pular e cantar como deve de ser em palco... já sabia ao que ia ahaha

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  2. Detesto quando me fazem isso. Muitas vezes, acabam por levar uma resposta torta :) não admito que ninguém assuma que eu posso fazer seja o que for. Nem sequer que me chateiem quando digo que não, ainda que o meu motivo seja só porque não me apetece. Ninguém tem nada a ver com as minhas razões, não é não e ponto final.

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  3. M., compreendo que é chato ouvir insistências (também já as ouço), mas nunca as interpreto como falta de empatia (isto é, falta de capacidade de calçar os meus sapatos); interpreto-as antes como vontade dos meus amigos de me terem por perto e de partilharem esses momentos comigo. Em convívios maiores (jantares de trabalho ou da minha antiga turma de faculdade), apenas 2 ou 3 insistem para que vá, porque são os únicos que se importam ou a quem a minha presença faz falta. Os outros são mais colegas do que amigos. Pensa nisto.

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    1. Sim, pode ser isso quando são amigos. Contudo, nota-se perfeitamente quando é uma insistência porque se quer muito a companhia da pessoa ou quando pura e simplesmente as pessoas não se conseguem colocar no lugar do outro, não conseguem perceber que há realidades diferentes da sua. Era a esses casos que me referia.

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