quinta-feira, 28 de junho de 2018

There is no such thing as too many books | Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante

Depois de tanto sururu, não houve volta a dar: tive que ler "A amiga Genial" para saber, afinal, what the fuss was all about. Comprei o livro a medo, quis ler o primeiro sem comprar os restantes porque tive medo de não gostar e depois ficar com os livros lá parados. Má jogada. Gostei tanto do primeiro que me arrependi profundamente de não ter comprado logo os restantes três da continuidade da história. Tive que esperar, fui lendo outras coisas entretanto, mas mal chegaram cá a casa, li tudo em tempo recorde. 
Nunca antes tinha lido livros com continuidade, muito menos tinha lido com tamanha avidez. Juro que só pousava os livros porque tenho que trabalhar e que assegurar umas quantas necessidades básicas, senão nem pararia. Li página atrás de página sem me aperceber do tempo passar. É o quanto adorei esta tetralogia. Mas, enfim, vamos ao que interessa. 



No primeiro livro da série, "A Amiga Genial", Lenú, a personagem principal e narradora participante de toda a história, começa a contar-nos a história da sua amizade com Lila, uma rapariga do mesmo bairro, que lhe causa um fascínio quase obsessivo. A narrativa passa-se em Nápoles, num bairro pobre e cheio de violência. Neste primeiro livro, vemos a história desta amizade na fase de infância e adolescência.



No segundo livro, "História do novo nome", as amigas continuam a lutar, cada uma à sua maneira, para prosseguirem com as suas vidas tão diferentes. Fala-nos do período de juventude de ambas, nas dificuldades de autoaceitação, dos diferentes rumos tomados. Vemos ainda uma amizade próxima apesar das diferenças entre elas. 


No terceiro livro, "História de quem vai e de quem fica", a narrativa centra-se no tempo intermédio da vida das amigas, os casamentos, os filhos, as dificuldades sentidas na vida adulta de ambas.


No quarto e último livro, "História da menina perdida", ficamos a par dos acontecimentos da vida de Lenú, Lila e restantes personagens numa fase mais avançada das suas vidas, até à velhice. 


É fascinante a capacidade de Elena Ferrante para criar todo um bairro tão complexo e cheio, com personagens tão diferentes e ricas. Não é só a história da Lenú e da Lila que interessa, também as personagens paralelas têm o seu relevo e o seu interesse. Os livros dão-nos uma perspetiva acerca dos acontecimentos do bairro, ao mesmo tempo que vamos acompanhando os acontecimentos do país. Todas as atrocidades cometidas no bairro incomodam. Não há um sentimento de bem-estar ao ler estes livros. Eu, pelo menos, dava por mim sempre em ansiedade, com um certo mal-estar despoletado pelos acontecimentos do bairro e pelos sentimentos que as próprias personagens nos despertam. Apesar da escrita ser bastante fluída e simples, os livros são cativantes e muito envolventes, a história tem um ritmo acelerado embora se prenda em alguns pormenores e descreva alguns acontecimentos com muita precisão e sem pressas. Contraditório, eu sei, mas parece que, em momentos, os acontecimentos fluem de rajada, enquanto outros se demoram pela complexidade de toda a situação.

Eu acredito que o que torna esta série de livros tão interessante é a dicotomia relacional das personagens principais: ora querem pertencer a vida toda uma à outra, serem escritoras famosas e ricas, vencerem na vida juntas, ora competem entre si para se sobressaírem. Apesar de Lila ser "a amiga genial", a mais esperta, a mais determinada, a que consegue cativar e seduzir todos os outros, é Lenú, com toda a sua insegurança e notória dificuldade em ser ela mesma, quem consegue cingir na vida, ter estudos, ser escritora, ser famosa. Houve partes em que me identifiquei tanto com as dificuldades dela, principalmente na sua luta para aprender, para estudar, para ter uma educação melhor que as pessoas do bairro, para sair dali e ser alguém na vida, que a angústia dela me causava angústia a mim. Com Lila não senti qualquer ligação que não fosse uma vontade de lhe dar duas chapadonas em vários momentos da vida dela. Aquela manha de só se interessar pelo que os outros se interessam, de querer ser melhor do que os outros todos, de manipular toda a gente de forma descarada, estava a enervar-me. E depois a Lenú sempre atrás dela, sempre a perdoar-lhe as coisas más que ela lhe fez, sempre dependente da aprovação dela. É precisamente por isto que os livros são tão cativantes: parece que estamos ali a viver aquilo com elas, queremos ajudá-las, gritar que deixem de ser parvas, impedir que tomem certas atitudes que só as vão prejudicar. Mas é também isso que torna as personagens tão credíveis. Elas poderiam ser pessoas reais, com os seus medos, inseguranças, contradições... Tão bom! A forma como ambas acabam por viver o casamento e a maternidade é uma chapada na cara da sociedade, nos clichés dos romances; dão-nos uma perspetiva realista e nada sonhadora da vida enquanto mulheres, esposas, mães e profissionais. Oh pá, gostei tanto!
Não fiquei particularmente agradada com o final do livro, esperava algo diferente. Não sou fã de finais abertos ou indefinidos. Esperava algo mais conclusivo. Achei que toda a história conduzia a um final mais empolgante, emocionante, uma coisa mais "txanan, tomem lá!" e nada. Ainda assim, fechei o último livro com um pesar que raramente me assola com esta intensidade: eu nunca mais vou ler estes livros pela primeira vez, sem esperar nada, sem saber de nada. Que inveja de quem ainda não leu!
Leiam todos, a sério, leiam!

Ainda para mais, hoje a Wook está com promoções! Aproveitem clicando no banner:

mwook28062018-mrec

2 comentários:

  1. Cada vez estou mais curiosa com esses livros :)

    ResponderExcluir
  2. Também ando com vontade de ler esses livros :) Acho que vou fazer como tu e comprar só o primeiro e depois logo vejo.

    Beijinho*

    ResponderExcluir