sexta-feira, 23 de março de 2018

"Ai que sorte que tu tens! Devia ter arranjado um assim!"

Cada vez mais me convenço de que as pessoas tomam decisões importantes de vida sem sequer conversarem seriamente sobre as coisas primeiro. Só assim consigo conceber que aconteçam tantos mal entendidos ou haja tantas expetativas goradas.

Quase todas as mulheres que eu conheço se queixam que fazem tudo em casa e que os maridos não servem para nada. Ouvindo-as falar sobre os maridos e a insatisfação que sentem com a forma como vivem, até me questiono por que foi que casaram. Não conversaram sobre essas coisas antes? A resposta é um óbvio não. Eles saíram da casa das mães onde eram tratados como mini reis, tendo a mãezinha a fazer-lhes tudo e sem eles mesmos saberem fazer nada, e esperavam casar e ter na esposa uma extensão da mãe, que cuidasse deles e da casa e dos filhos, quando os houver. E elas? Já sabiam como eles eram e quiseram casar, estavam à espera de um desfecho diferente? Que de repente eles se transformassem em fadas do lar? Pois.

Nada tenho contra quem queira ser empregada doméstica dos próprios maridos, mas isso não é para mim. Sempre o disse a toda a gente, nunca foi segredo, portanto é óbvio que falei com o meu namorado sobre todas estas coisas. Muitos anos antes de começarmos sequer a pensar ir viver juntos, ele já sabia que na nossa casa as tarefas haviam de ser divididas ou nada feito. Por muito que eu o ame, sempre lhe disse que, se era para ser eu a tratar de tudo, preferia nunca viver com ele. Sei que me ia ressentir e a relação acabaria por ficar estragada ou até mesmo acabar, porque eu não tenho feitio para aguentar estas coisas e continuar de bem com a vida. Felizmente, tenho em casa um homem que pensa como eu, que quer estar comigo porque me ama e não porque precisa de alguém para lhe lavar as cuecas e fazer o jantar. Portanto, obviamente que as tarefas são partilhadas desde o primeiro dia, sem sequer ter sido necessário falar sobre o assunto na hora em que nos mudamos. Simplesmente começamos ambos a fazer as coisas e pronto. Não há tarefas só de um ou tarefas só do outro, embora existam coisas que parece que já ficaram destinadas a cada um (nunca lavo a loiça, por exemplo, uma vez que sou sempre eu a cozinhar), embora nada impeça o outro de as fazer.  E depois as mulheres que conheço dizem-me: "Ai que sorte!". Sorte? Chama-se compromisso e comunicação. Temos um compromisso um com o outro em que nos vemos como uma equipa. Sempre falamos muito sobre as coisas, o que queríamos, o que esperávamos um do outro, o que não queríamos. Vamos falando e vamo-nos ajustando um ao outro. Nunca fiquei à espera que ele entendesse coisas que eu nunca lhe disse, nessa cena típica de gaja. Eles não lêem mentes, esqueçam lá isso. Nem nós lemos as deles. É preciso conversar. 

Quando chegar a altura de ter filhos, teremos que ter novamente uma conversa séria. Já falamos muitas vezes sobre isto e estamos os dois no mesmo pé em relação ao assunto, mas nunca é demais relembrar. Eu não quero ter filhos para ser eu a tratar de tudo, como a minha mãe ou as minhas tias. Para isso, seria mãe solteira e pronto, nem sequer tinha que dividir os meus filhos com mais ninguém.  Quero muito ser mãe, mas se for para ser só responsabilidade minha, para ser só eu a cuidar e educar, não quero. Não hei de fazer filhos sozinha, portanto não os hei de criar sozinha. E isto vale tanto para o exemplo da relação que temos agora como se nos separarmos. Se eu achasse, em algum momento, que, tendo-nos separado, o meu namorado não seria capaz de cuidar dos nossos filhos sozinho, se eu não tivesse a confiança de os entregar ao pai e estar descansada, então nem sequer ponderava ter filhos com ele. Acho que falta à maioria das pessoas este tipo de conversas para estabelecer logo de início o que querem para as suas vidas. Se estas conversas fossem tidas antes dos casamentos ou de ter filhos, não haveria por aí tanta mulher infeliz, insatisfeita, com uma carga enorme de trabalhos e responsabilidades às costas, enquanto criam  e cuidam de filhos e maridos-filhos, sozinhas.

E não, estas coisas não acontecem só nas terrinhas ou com pessoas de uma certa faixa etária. Há muito boa gente jovem, com cursos superiores, a viver em grandes cidades, que pensam que o outro (seja homem ou mulher) vai ter que viver para o servir, que pensam que o outro tem o dever de tratar de tudo, que os filhos são responsabilidade só da mãe, etc etc. É assustador, mas é verdade. Não são só as velhinhas das terriolas que se queixam de ter que fazer tudo em casa. Felizmente, hoje em dia as coisas já estão bem melhores neste sentido, mas ainda há muito que batalhar até chegarmos àquele estado de igualdade nas divisões de tarefas e nas responsabilidades quanto ao lar e aos filhos. 

7 comentários:

  1. Quando me mudei foi precisamente igual. Já várias vezes tínhamos falado sobre o assunto uma vez que eu eu não gosto de tarefas domésticas (eu acho que ninguém gosta, mas ouço tantas mulheres dizerem que adoram limpar a casa que nem sei se acredito ou não)e seria óbvio que não iria fazer as coisas sozinha em casa. E assim foi. O meu namorado nunca teve problema em pegar no aspirador e aspirar a casa enquanto eu dou um jeito na casa de banho. Ou limpar o pó enquanto estou a limpar os azulejos da cozinha. Acho que ele até tem mais jeito que eu, mas a verdade é que agora com o trabalho mais a sério as coisas mudaram um bocadinho. Ele sai mais cedo de casa e chega mais tarde. Por muito que deteste cozinhar não vou estar à espera que ele chegue para fazer o jantar. Vou eu tratando do assunto. Se antigamente ao sábado era dia de limpeza, agora prefiro eu tratar do assunto durante a semana ao final do dia porque podemos aproveitar o fim de semana completo. Ainda assim, ele todos os dias passa a "mopa" ao chão e seca/arruma a loiça. E mesmo assim ainda me atura porque tenho resmungado bastante uma vez que acho que cada vez tenho mais tarefas, ainda que compreenda o motivo.
    Se não se falar abertamente sobre o assunto é que não vão resolver nada. E se tiver que haver chatice pois então que haja. Agora ser escrava de alguém e depois dizer aos outros "que sorte" isso não.
    Ou é ou não é!!!
    https://jusajublog.blogspot.pt/

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  2. Eu pensava que os homens já não eram assim, mas na empresa onde trabalho um rapaz mais novo que eu diz que não faz nada em casa, que a namorada é que tem de fazer. Eles moram juntos há um mês e já é assim. Não sei como ela aguenta.

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  3. Que saudades tenho do tempo em que era tratada como uma rainha : “ deixa estar, eu faço , eu limpo , eu trato “. E pronto .. o meu tempo de cinderela já se foi ..

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  4. O meu namorado vinha mal habituado mas depressa lhe disse que não era empregada dele. Ele faz umas coisas eu faço outras. Com a chegada do nosso cão também tivemos que começar a dividir as coisas e somos os dois responsáveis por ele. Quando tivermos um filho terá que ser igual. As tarefas não podem ficar todas nas costas de alguém e se for preciso chatear-me ainda me chateio. Ele depois lá percebe que não moro cá sozinha e mexe-se. Nem podia ser de outra forma.

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  5. Sou sincera, acho isso sempre um cliche enorme. Muitas mulheres ainda tem esse pensamento sobre os homens: que pouco fazem ou quando fazem não é nada de jeito. E acabam por ser elas a assumir as tarefas porque tomam como adquirido que eles não vão fazer bem.

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  6. Aqui as tarefas são divididas e nem precisei de falar sobre isso. No entanto, homens que fazem tarefas domésticas continuam a ser uma minoria porque fomos socializados (tanto eles como nós, mulheres) de que cuidar da casa cabe exclusivamente à mulher. É algo que tem de acabar, afinal eles também vivem em casa e não fazem mais do que a sua obrigação em tratar dos afazeres.

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  7. Um dos grandes problemas é as mulheres assumirem isso também como natural. Não. Natural é tudo ser partilhado. Ninguém é criado do parceiro...

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