quinta-feira, 27 de julho de 2017

Perguntas indelicadas

Nunca fui mãe, nunca passei por essa situação nem sei o que as grávidas pensam sobre isso, mas considero extremamente indelicado perguntar a uma mulher se a gravidez foi planeada ou "um acidente".

Primeiro, odeio a expressão "acidente" quando se fala em gravidez. Ninguém engravida por acidente, toda a gente sabe as consequências do sexo. Pode ter havido ali alguma falha com os contracetivos, quando são, sequer, usados, mas nunca é acidental. Não foi planeado, mas não é como se as pessoas não soubessem o que estavam a fazer e tenham tido ali um acidente. A expressão acidente tem uma conotação negativa que, para mim, não é sequer aplicável ao privilégio de criar vida. Sou picuinhas com estas coisas, sim. 

E depois, que raio interessa aos outros se a gravidez de terceiros é ou não planeada? Percebo a curiosidade, até porque é mais fácil saber a reação a ter quando nos contam uma notícia destas. Mas, na realidade, o que é que muda nas nossas vidas por sabermos se as gravidezes das outras são ou não planeadas? Absolutamente nada. Essas coisas interessam aos pais, ponto. 

Se calhar sou antiquada, conversadora, whatever, mas não encaro isto de ter filhos de ânimo leve e acredito que gerar vida, queira-se ou não ser pai, é uma capacidade extraordinária que não deveria cair no desencanto da normalidade. Por achar tudo isto tão mágico, detesto ouvir estas expressões corriqueiras. Mesmo que uma gravidez não seja planeada (e a partir do momento em que a pessoa decide levar a gravidez até ao fim e ter um filho), não é de bom tom estar a perguntar ou a relembrar isso às pessoas.  As reações a essa pergunta podem variar. As pessoas podem ficar envergonhadas por não terem tido mais cuidados, podem sentir-se inferiores por não terem controlado esse aspeto tão importante da vida, podem estar tristes porque não queriam mesmo ter filhos, eu sei lá! Não precisamos de ir cravar o dedo mais fundo na ferida. E, por outro lado, as pessoas até podem ficar ofendidas.

É isso e algumas pessoas dizerem à boca cheia que nunca quiseram ter filhos, que os filhos foram acidentes, que não queriam nada ser pais. Se não queriam, que tivessem mais cuidado! Acho de uma falta de noção incrível andar-se por aí a dizer isso, ainda mais à frente dos filhos. Não tem nada de mal ter-se sido fruto de uma gravidez não planeada, nem tem nada de mal os filhos saberem isso. Mas há formas e formas de o dizer. Eu sei que me sentiria mal se os meus pais andassem constantemente a dizer que não me queriam, que vim "por acidente". 

Como mulher, e ainda não tendo sido mãe, acho extremamente desagradável perguntar isso a alguém. Espero sinceramente que nunca ninguém se lembre de me fazer uma pergunta dessas porque quem diz o que quer, ouve o que não quer. 

6 comentários:

  1. Eu também ainda não sou mãe mas acho que quando engravidar se alguém me perguntar isso vai levar uma resposta torta. Eu, por acaso, fui bastante planeada. E o meu namorado também. Pensamos nós que temos a coisa mais ou menos planeada para daqui a uns 4/5 anos mas ultimamente tenho pensado que o conceito de planeamento é muito hipotético. Estamos à espera de um momento em que a parte financeira seja mais estável. Mas e se esse momento nunca chegar? Às vezes penso que seria melhor se acontecesse sem planearmos. Até porque a pressão de estar sempre à espera para ver se já engravidámos deve ser sufocante. Tenho-me questionado bastante nos últimos tempos...

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    1. É profundamente esgotante, acredita. Mas como não planear? Ao se pensar nisso já se está a planear. E quando não se planeia coisas más podem acontecer. Nos planeámos mas sem qualquer pressão. Deixei de tomar a pílula e pronto. Nada de ir ao médico. Resultado: engravidei pouco depois mas perdi o bebe. Entretanto ainda não consegui voltar a engravidar e acredita: é mais que sufocante.

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  2. Concordo plenamente com tudo! Às vezes nada têm haver se foi ou não planeado. Eu não sou mãe mas é uma pergunta que também não gosto nada!

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  3. Eu sou mãe, mas, para dizer a verdade, não me recordo se alguma vez me perguntaram isso. Nunca chamei acidente ao meu pequeno, mas não foi planeado. O meu filho é aquilo a que chamam "filho do antibiótico". No entanto, foi um descuido meu, não que não soubesse, mas esqueci-me completamente que aquilo interferia com a pílula. Não me faz confusão usarem a palavra acidente, mas percebo o que queres dizer. Essa não me incomoda, mas há outras que sim e, quando incomodam, é responder à altura. As pessoas gostam de se meter sempre onde não devem...

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  4. Opa, realmente é de muito mau tom! E ninguém tem nada a ver com isso.
    Ri-me quando escreveste "até porque é mais fácil saber a reação a ter quando nos contam uma notícia destas", porque aqui há 2 anos, encontrei uma rapariga que não via há muito e perguntei-lhe:
    - Então e a tua mãe e a tua irmã? Estão boas?
    Ela diz-me:
    - Ah, a minha irmã está grávida, sabias?
    E eu... Que fiquei com a cabeça a mil, a pensar "O QUÊ? COMO ASSIM?", consegui evitar transmitir isso e exprimi com um ar feliz:
    - A sério??? Que bom!!!!
    Ao que a rapariga faz um ar de desânimo e diz:
    - Pois, sim...
    Por isso, às vezes ajudava, ajudava xD Mas perguntar isso... Epa. Não.

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  5. ... Eu cresci a ouvir que fui acidente que, se eu não tivesse nascido, isto e aquilo!! Sei o que dói!
    É de uma falta de educação, de tacto e sensibilidade perguntar tal coisa!!

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