quarta-feira, 3 de maio de 2017

Parabéns avó!

Há algo de incrivelmente reconfortante nos silêncios que partilho com a minha avó, enquanto a observo nas tarefas que tem sempre pra fazer quando chego a casa dela. A minha avó, ao contrário de mim que sou tagarela desde pequena, é uma mulher de poucas palavras. Não é de grandes conversas, muito menos de grandes afetos. Pensando bem, acho que a minha avó nunca me disse um gosto de ti. Mas nem precisa. Fica dito nos olhos verdes de alegria sempre que me vê, no leite creme que faz só para mim porque adoro, no "Oh menina, estás aí?" quando lhe faço uma visita inesperada. Na nossa foto que lhe ofereci no Natal e que ela colocou em destaque e que fez questão de mostrar a toda a gente que lá foi a casa; no "não sejas tolinha" que diz a rir sempre que eu me começo a armar em parva para a chatear, na preocupação em fazer-me comer porque "estás muito magrinha!" (estou sempre muito magrinha pra minha avó). 

A minha avó tem todos os motivos para não ser afetuosa porque a vida foi-lhe madrasta, nunca teve carinho de ninguém, nunca ninguém cuidou dela. É ela que cuida sempre de todos, com uma capacidade inesgotável de dar sem receber. A minha avó nunca aprendeu a expressar os seus afetos por palavras, por isso fá-lo por gestos: faz comidinhas especiais para os grávidos de saudades da infância, serve de abrigo a todos, num colo magro que estica e estica e estica, ouve com atenção e não julga, "porque tu é que sabes da tua vida, menina", entre muitas outras coisas que só ela é capaz de fazer, deixando o medo de uma vida que se avizinha, inevitavelmente, sem ela. Porque só ela é capaz de dizer tanto sem dizer nada, mulher de poucas palavras, mas de muito amor nos gestos e na presença na minha vida. 

repost de 2014

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