quinta-feira, 11 de maio de 2017

Filhos que não devem nada aos pais

Se há coisa que me chateia muito nesta vida e sobre as quais tenho imensas discussões com outras pessoas é aquela coisa de os filhos terem que dar dinheiro aos pais, quando começam a trabalhar. Os nossos pais não têm obrigação de nos sustentar quando já somos autosuficientes, claro, mas também não são os filhos que têm que manter os luxos dos pais, como muitas vezes vejo acontecer. Acredito que o facto de não dar despesas a não ser, obviamente, as inerentes a viver debaixo do mesmo teto (água, luz, gás, comida), já tira um peso enorme das costas dos pais, não vejo por que razão ainda teria que dar dinheiro aos meus pais para viver com eles. No dia em que os meus pais me pedissem dinheiro para eu viver com eles, eu arranjaria outro sítio. Pagar renda por pagar, iria viver sozinha e sem chatices. 

Ainda assim, não pensem que o que eu quero é viver à custa dos meus pais! Sou muito a favor dos filhos contribuírem com as despesas, quando se vive na alçada dos pais. Não acho justo que vivamos com os nossos pais até termos 30 anos, andarmos a trabalhar e os nossos pais é que ainda sustentam os nossos luxos, além das nossas necessidades básicas. Mas a ideia de ter que dar um valor fixo mensal para comer, é coisa para me tirar do sério. Sim, porque aqui na terra é muito comum esta coisa de "os meus filhos dão dinheiro para comer".

Só para começar, o conceito de dar dinheiro para comer irrita-me profundamente. Se os meus pais tiveram forma de me sustentar até eu ter começado a trabalhar (aos 21), ainda tinham despesas com educação e tinham que me vestir e calçar, fora aqueles extras normais, não me parece que seja agora que eu pago as minhas contas, que compro a minha roupa e que não lhes peço dinheiro nenhum que vão deixar de ter forma de me dar de comer. É ridículo sequer pensar que um pai peça dinheiro a um filho para comer. Já por diversas vezes disse aos meus pais que no dia em que viessem com tal ideia, eu arranjaria onde comer fora. É estúpido e soa-me tão mesquinho!

Não estamos nos tempos em que os filhos é que iam trabalhar aos 10 anos para sustentar os irmãos e o resto da família. Depois gerações como as dos meus pais dizem muitas vezes que nós agora temos o nosso dinheiro todo, que quando eram eles, iam trabalhar mas davam o dinheiro todo aos pais. Começa logo mal esta ideia de que "fizeram-me a mim e não gostei, mas vou fazer aos outros na mesma". E depois, como já discuti imensas vezes com pessoas dessa idade, os tempos nem se compram. Para começar, as pessoas vão trabalhar muito mais tarde porque, regra geral, também estudam até mais tarde. Há muitas outras despesas. A minha mãe foi ganhar 5 contos quando tinha 12 anos. Aquilo para a minha avó, que tinha mais 6 filhos para criar sozinha, era uma ajuda enorme. E depois querem sempre fazer parecer que foram mais vítimas do que o que foram na realidade. A minha mãe dava os tais 5 contos à minha avó, e é certo que não ficava com um escudo para si, mas a minha avó dava-lhe o que precisava. Além de que esse dinheiro serviu para comprar o enxoval (outra coisa para um post posterior) e pagar o casamento. Se fosse a minha mãe a juntar o dinheiro do seu trabalho, não dava para se manter e ainda pagar um casamento e tudo o que levou para dentro de casa quando casou. Hoje em dia, a não ser que os pais façam muita questão ou sejam ricos, quem paga essas coisas somos nós. Carta de condução, carro, juntar dinheiro para uma casa e tudo o que é preciso para a mobilar e tornar habitável, casamento para quem o quer... Eu não me importo nada de dar todo o meu dinheiro aos meus pais, mas então sempre que eu quiser sair ou comprar alguma coisa eles dão, quando eu quiser casar eles pagam e quando sair de casa eles mobilam a casa e compram louças e essas coisas todas. Vamos lá propor isto aos paizinhos que querem o dinheiro dos filhos, a ver se eles acham bom negócio.

E depois enerva-me ainda mais quando há injustiças entre irmãos. Porque um irmão ganha mais, tem que dar um valor maior ou há um que contribui para as despesas e outro que não. Sei de casos de pessoas que toda a vida deram um valor fixo mensal aos pais e tinham irmãos mais novos que nunca contribuíram com nada. Ou seja, andaram eles a manter os pais e os irmãos e depois a eles ninguém ajuda, ninguém dá nada. E mais, acho uma falta de noção que se dê então um valor para contribuir e depois ainda venham cobrar mais por isto ou por aquilo. 

Não se trata de ser forreta nem de querer viver à custa dos outros. Trata-se de sermos justos e de levarmos uma vida sem sermos prejudicados. Pais que querem viver à custa dos filhos tiram-me do sério. Um pai tem obrigação de sustentar um filho enquanto este não é independente (e está a tratar disso), afinal de contas é a obrigação de um pai não deixar que nada falte aos filhos e fazer o melhor por eles. Mas filhos não têm obrigação de sustentar aos pais só porque foram dependentes muitos anos. Nem eu acredito que devo alguma coisa aos meus pais por eles me darem comida e um teto. Fico-lhes muito agradecida por tudo o que me proporcionam, tento contribuir como posso, mas não sinto obrigação de os ressarcir por estes anos. E bons pais, pais como deve ser, nem sequer viriam com estas questões, tal como os meus não fazem. Exigir dinheiro pela comida que põe no prato dos filhos só porque eles agora trabalham? Poupem-me!

7 comentários:

  1. Fogoo nunca me deparei com casos destes, quando comecei a trabalhar os meus pais nunca me pediram nada!
    É uma realidade muito bem descrita M.!

    ResponderExcluir
  2. Great post dear

    Have a nice day! :)

    ResponderExcluir
  3. "Se os meus pais tiveram forma de me sustentar até eu ter começado a trabalhar (aos 21), ainda tinham despesas com educação e tinham que me vestir e calçar, fora aqueles extras normais, não me parece que seja agora que eu pago as minhas contas, que compro a minha roupa e que não lhes peço dinheiro nenhum que vão deixar de ter forma de me dar de comer."

    Não acho que seja a melhor forma de ver a coisa, porque, por esse prisma, os pais podem continuar a sustentar os filhos até morrerem, se os filhos entenderem que, se os pais sempre o fizeram, podem continuar a fazer, para que os próprios possam gastar o seu ordenado nas suas coisas apenas e não nos gastos mensais (luz, água e afins) para os quais também contribuem.

    Não acho muito bonito os pais quererem aproveitar-se dos filhos, não. Viver às custas dos filhos só porque trabalham não, aí concordo. No entanto, não é assim tão preto no branco, depende muito das circunstâncias familiares e da situação financeira.

    Eu, por exemplo, comecei a trabalhar com 18 e nunca dei dinheiro aos meus pais, porque não havia essa necessidade e eles faziam questão que eu ficasse com o que ganhava. Por isso, não condeno esta forma de pensar.

    No entanto... existem situações familiares em que o dinheiro é mesmo muito escasso e em que, quando os filhos começam a ganhar, não faz sentido gastarem em roupas, saídas, jantares fora ou whatever quando podem ajudar os pais para que a situação em casa melhore. Achas mesquinho os pais pedirem dinheiro aos filhos? Eu acho mesquinho os filhos não se sentirem na obrigação de contribuir quando o podem fazer e quando há essa necessidade.

    Há que analisar as situações. O meu namorado, quando vivia com os pais, dava-lhes dinheiro do ordenado dele. Para ajudar nas despesas. Porque havia falta de comida e contas em atraso. Nestas circunstâncias, seria correcto não dar dinheiro algum? Nem todas as casas funcionam da mesma forma...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Situações em que há falta de dinheiro, há despesas em atraso, há realmente necessidade, claro que apoio e até acredito que seja um dever ajudar! Não falo de situações em que as famílias passam necessidades. Falo em situações em que tudo corre normalmente, em que não há nem nunca houve essa necessidade, e ainda assim os pais se aproveitam dos filhos!

      Não me importo nada de dar dinheiro aos meus pais para ajudar em despesas, desde que eu veja que é mesmo para isso e não para os meus pais andarem a juntar dinheiro para luxos e férias e carros à minha custa, como vejo fazer!

      Excluir
  4. Epa nem sabia que isso do vakor fixo para comer era uma cena. Parece demasiado estapafúrdio para ser verdade!

    ResponderExcluir
  5. Também acho um bocado parvo.. Principalmente se houver diferenciação entre irmãos. Se a família passar dificuldades, é uma coisa.. Mas também não me parece que pagar um valor fixo seja solução. Se os filhos sabem disso, cabe ao bom senso contribuir com supermercado de vez em quando ou com despesas específicas.

    ResponderExcluir
  6. Já ouvi que em Inglaterra - se não me engano - é habitual os filhos, quando começam a trabalhar, pagarem uma "renda" aos pais, mas nunca tinha ouvido tal coisa por aqui.

    ResponderExcluir