quinta-feira, 23 de março de 2017

Trabalhar na área

Têm-me perguntado se o meu trabalho é na minha área de estudos. Não é. Como disse anteriormente e no inicio do post das boas notícias, é uma área que não tem a ver com nada do que eu esperava. Nunca pensei estar a fazer este trabalho, embora todos os meus amigos me dissessem que esta é, claramente, uma área onde me imaginam a ter muito sucesso por todas as minhas características pessoais que se enquadram no tipo de pessoa necessária para estas funções. 

Não interessa para já entrar em pormenores, mas tenho a certeza absoluta que, para ter um contrato de trabalho como este na minha área, iria ter que penar muito para lá chegar e, sinceramente, não sei se chegaria. A Psicologia é importantíssima e deu-me bagagem emocional e formativa que, acredito, me faz ser uma melhor pessoa, uma melhor profissional. Gostaria muito de poder ser psicóloga como sonhei ao entrar na faculdade, mas a verdade é que o mercado está mais do que saturado e as condições são péssimas. A questão do estagio profissional para acesso à OPP é das coisas mais estúpidas que já vi. Embora perceba a sua utilidade teórica, na prática não funciona. Eu fiz 5 anos de estudos em Psicologia e um estágio curricular de quase 1 ano onde eu já estava mais do que encarregue de todos os processos que acompanhava. Para que é que preciso de outro estágio? É perder tempo, dinheiro e anos de vida. Bem sei que é uma das formas de delimitar o acesso à profissão mas para isso que abrissem menos vagas para Psicologia por ano, para reduzir o número de psicólogos. Não me parece justo ter feito uma especialização numa área de estudos durante 5 anos, com um ano de prática, embora sendo estágio curricular supervisionado, e só poder ser considerada psicóloga quando fizer um outro estágio que me permita estar na Ordem. É deprimente, mas é a realidade do país e nem vale a pena contrariar mais. 

O desânimo é crescente. Vai fazer 2 anos que terminei o curso e nunca surgiu uma oportunidade de estágio profissional. Os amigos que conseguiram trabalham em condições deploráveis, com salários em nada compatíveis com as funções e horários que exercem, vivendo de recibos verdes em que só lhes pagam, em alguns casos, 20% do valor das consultas que dão. É um roubo e é brincar com as pessoas.

Sempre fui muito pragmática nestas coisas: o que eu sempre quis foi um trabalho onde me sentisse feliz, gostar do que fazia e ter boas condições de trabalho. Claro que toda a gente começa por baixo e a ganhar pouco, mas queria ter a possibilidade de progredir e ir sendo e ganhando mais. Vejo essas oportunidades nesta empresa, embora em nada tenha a ver com o que alguma vez me imaginei a  fazer. Não quero dizer que desisti da Psicologia, apenas que segui outros caminhos por enquanto. E enquanto me sentir feliz, realizada e recompensada pelo trabalho que faço, não procurarei outro. Sei que neste sítio tenho possibilidade de ir muito mais além, de ter novas experiências, de me tornar mais destemida, mais desenrascada, mais confiante e fazer um bom trabalho que me permita tornar-me melhor e mais importante para a empresa. Tudo isso será recompensado devidamente e tenho plena confiança de que, em fazendo o meu trabalho como deve ser, não terei que me preocupar com questões de contrato, renovações, etc. Esta empresa apostou em mim apesar de eu ser um diamante em bruto, com muito pouca experiência mas com potencial para me tornar exatamente naquilo que eles pretendem. Quero aproveitar essa oportunidade enquanto fizer sentido para ambas as partes. 

Este trabalho deixa-me completamente fora da minha zona de conforto, sinto-me muitas vezes deslocada, tenho dúvidas, medos e inseguranças, todos os dias ando ansiosa e com dores de barriga porque estou constantemente a pôr-me à prova, a fazer coisas que nunca fiz. Numa semana já visitei mais sítios de Portugal do que nos últimos anos da minha vida. Se algum dia me imaginaria a vir sozinha para Lisboa? Nunca. Mas vim e cá estou. Estou a abrir os meus horizontes, a ver coisas novas, a testar os meus limites e a superá-los. Não sei se a Psicologia me permitiria tudo isto. Para já, está em standby. Mas só a procura, porque os conhecimentos adquiridos são aplicados todos os dias e isso ninguém me tira.

13 comentários:

  1. Espero sinceramente que consigas algo em Psicologia ou que te faça feliz. Até lá tenta ter força princesa <3

    THE PINK ELEPHANT SHOE // INSTAGRAM //

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  2. Good luck!))
    Hugs!
    https://lolazas.blogspot.com/

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  3. Há pessoas que tiram uma licenciatura e não abrem mão do seu curso mesmo que estejam anos e anos desempregadas. No meu caso, não trabalho especificamente na área para a qual me licenciei mas com uma população que está dentro da minha área de actuação. E às vezes, acho que precisava de mudar de vida para ser mais feliz. Mas depois falta-me a coragem de arriscar, de sair da zona de conforto. mas há contas a pagar, uma filha e um local de trabalho há 6 anos acaba por falar mais alto, mesmo que haja dias em que só em apeteça mandar tudo às urtigas.

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    1. Acredito que, em qualquer trabalho, há sempre dias em que apetece deixar tudo para trás e recomeçar. Mas, lá está, as responsabilidades falam mais alto. Desde que gostes minimamente do que fazes, não acredito que seja problemático, mas se não estás mesmo bem, força para essa mudança! Só custa a primeira...falo por experiência!

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  4. Como sabes compreendo perfeitamente tudo o que escreves e apoio a 100%. Desejo-te a maior sorte e sucesso nesse emprego que, mesmo não sendo na área, parece ter as condições para te fazer sentir preenchida e realizada. Isso é o mais importante. Além disso, é como dizes... a Psicologia continua lá, nas aprendizagens que fizemos, nos dilemas que temos de enfrentar no dia-a-dia, nas pessoas com quem temos de aprender a conviver que nem sempre se ajustam aos nossos valores e padrões, na regulação da ansiedade que sentimos quando fazemos algo novo pela primeira vez... Aproveita a Psicologia para enfrentar esses e outros momentos com maior controlo e mais sabedoria! No fim o tempo encarregar-se-á de explicar porque foi assim e não de outra maneira. :)

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    1. É mesmo isso tudo: a psicologia acaba por ser essencial no meu dia-a-dia e acabo por utilizar imensas coisas que aprendi. Considero que seja uma mais valia, mais que não seja para realização pessoal.
      Tenho usado muitas técnicas e aplicado imensas coisas agora nesta fase, nomeadamente no controlo da ansiedade e gestão do stress. E, estando "treinada" para estar atenta a certas coisas, tem sido uma mais valia para o próprio trabalho que desenvolvo. Não me arrependo nada de ter tirado o curso, mesmo que nos momentos de maior desanimo tenha pensado, algumas vezes, que foi um desperdício de tempo e dinheiro. Não é, não foi e nunca será porque me tornou numa pessoa melhor, na pessoa que sou hoje, e me deu ferramentas importantes para a vida e possibilidades que não teria tido de outra forma.

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  5. Parabéns por teres conseguido um trabalho. :) Tenho pena que não seja o teu tão desejado estágio na área. Mas também te digo que se fosse para ser como o meu, acho que podes estar bem melhor nesse emprego.
    Concordo com tudo o que disseste em relação à nossa área. Partilho cada linha, cada descontentamento e cada coisa que achas sem sentido na nossa (des)ordem profissional.
    Espero que tudo te corra bem. Que sejas feliz a fazer aquilo que estás a fazer e que quando menos esperares consigas voltar à psicologia com uma bagagem totalmente diferente.
    Também concordo contigo em relação ao que escreves sobre o facto de o nosso curso nos oferecer muitas ferramentas que vão para além do nosso trabalho. Penso que temos um curso completo e que nos permite abraçar diferentes áreas (é penas é que menos assim elas não surjam, ou quando surgem é em condições miseráveis).
    Tudo de bom e de bem para ti.
    Beijinhos

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    1. Muito obrigada por teres sempre palavras tão bonitas e desejos tão sinceros em relação a mim, sendo que nem nos conhecemos. Fico feliz por poder criar esta empatia nas pessoas.

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    2. Tão querida, M.
      A minha teoria sempre foi espalhar amor e receberás amor. Não ganhamos nada em andar aqui a desejar mal aos outros ou não ficarmos felizes quando alguém alcance algo pelo qual conquistou.
      Para mim, mesmo estando em fases negras, consigo inspirar-me nas coisas boas dos outros. Dão-me esperança e reforçam a minha ideia de que, mais tarde ou mais cedo o nosso esforço poderá ser recompensado.
      Sinto-te como uma pessoa genuína e com quem vou partilhando muito das visões que vais partilhando por aqui. :)
      Por tudo isto, gosto de espalhar palavras boas e sinceras pelas pessoas. Se isso tornar o mundo delas melhor, o meu, de certeza que também fica.
      Força aí.

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    3. Só uma pessoa genuinamente boa, feliz e de bem com a vida pensa dessa forma.

      Penso como tu, acho que espalhar o amor e o bem é algo que além de fazer bem aos outros, muda qualquer coisa dentro de nós. Se podemos fazê-lo, nunca deveríamos retrair esses pensamentos e essas vontades de espalhar o bem.

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    4. Obrigada :). Embora feliz com a vida não seja uma boa definição para mim neste momento. Mas lá está, ninguém tem culpa e isso não se deve refletir na forma como tratamos os outros.

      Não sei se sentes o mesmo, mas no meu caso sinto é que estou mais susceptível às "patadas" por parte dos outros. :) lol
      Mas sim, devemos sempre espalhar o bem e quando do outro lado não há essa reciprocidade, o que faço é ignorar e só dar o mínimo e indispensável de mim a essas pessoas ou situações.

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  6. Tenho a certeza de que fizeram uma excelente escolha em contratar-te, independentemente da tua área de estudos. De facto não sei em que trabalhas, mas há muitas outras coisas que sei depois de tanto tempo a ler-te... E se aceitaste este desafio, não os vais desiludir nem a eles nem a ti ;) you go, girl! Força nisso! Infelizmente, o que descreves foi uma das razões para eu não ter seguido psicologia... Por vezes, por muito bons profissionais que sejamos / possamos vir a ser, não nos são dadas oportunidades decentes e isso é muito triste. Essa também é uma das razões que me faz não querer voltar para Portugal se quiser ser investigadora :/

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  7. Este texto faz todo o sentido para mim! Também ando à procura de trabalho e dou por mim a enviar CV para coisas fora da minha área de formação... e não necessariamente com aquela ideia de que, pronto, não aparecendo nada na área, faço "qualquer coisa" que apareça! Na verdade muitas vezes penso que até seriam funções que talvez me conseguissem realizar profissionalmente :)

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