sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Parece conversa de psicóloga, mas é verdade que tudo depende da vinculação

Cá em casa não há segredos. Certamente há coisas que uns não sabem sobre os outros, nem têm que saber porque é mesmo assim, há coisas que só a nós mesmos dizem respeito, mas não existem aquelas coisas que se mantêm totalmente em segredo porque o outro não pode mesmo saber. Por isso não entendo - nem quero nunca uma relação dessas para mim - aquelas relações de pais/filhos em que há segredos, em que se tem que mentir e esconder coisas. 

Os meus pais não sabem que tenho tatuagens, os meus pais não podem saber que namoro, os meus pais não podem saber que saio com aquela amiga, etc. Isso para mim está fora de questão. Não é o tipo de pais que tenho e, seguramente, não é o tipo de mãe que um dia quero ser. Sem dúvida que as pessoas precisam da sua individualidade, de terem as suas coisas que mais ninguém precisa de saber, toda a gente merece a sua privacidade. Mas acredito que numa verdadeira família deve haver o à vontade para se falar de tudo. Depois a escolha de contar ou não certas coisas depende de cada um, mas pelo menos gostaria que os meus filhos se sentissem confortáveis e seguros para virem ter comigo e falarem-me do que quer que seja que os atormenta, que tirem dúvidas, que desabafem, que me contem coisas importantes e felizes. Como filha, sempre senti que poderia recorrer aos meus pais para tudo, fosse sobre o que fosse. Nunca senti necessidade de esconder absolutamente nada dos meus pais porque sabia que, independentemente de ser algo bom ou mau, os meus pais iriam ouvir sem julgar e ajudar-me-iam se pudessem. Poderiam ralhar ou ficarem tristes com algumas situações, mas sabia que era esse também o papel deles. E é isso que eu sinto que falta quando ouço alguém dizer que esconde coisas dos pais. Porque se as pessoas sentem necessidade de manter segredo, de esconder e de mentir, é porque sabem que os pais iriam julgar, criticar, zangar-se, castigar... Não há uma relação segura e de confiança.

Também sinto que muitas vezes os filhos têm necessidade de esconder certas coisas porque não são capazes de se afirmarem perante os pais. Obviamente não falo de crianças ou adolescentes, porque quando estamos dependentes dos pais e ainda somos pequenos, temos mais é que fazer o que nos mandam, mas falo de pessoas adultas. Não seria capaz de desrespeitar os meus pais, mas também sou segura o suficiente para fazer valer as minhas vontades, independentemente da aprovação deles. Não é porque os meus pais não gostam de tatuagens que eu esconderia a que tenho ou deixaria de namorar com alguém porque os meus pais não gostam. Estamos a falar de pessoas adultas e independentes que continuam a guardar dos pais estas coisas aparentemente insignificantes. Tenho uma amiga que morre de medo que o pai descubra as mil tatuagens que tem (e, já agora, que pais são estes que estão tão a leste que nem vêem tatuagens em sítios visíveis e até brincos e piercings?). Há pessoas que fumaram a vida toda e nunca contaram aos pais. Sei lá, coisas assim, inofensivas. Os pais também são pessoas, também fazem coisas que os pais deles não gostam, também têm vícios e gostos e vontades. Os filhos são pessoas como outras, há que entender que um dia terão os seus próprios vícios e gostos e vontades. Podem até não concordar, mas têm que aceitar. Faz parte da vida, das relações humanas. 

Espero um dia ser mãe e ser suficientemente aberta às pessoas em que os meus filhos se tornem, ter o autocontrolo para reprimir o instinto de berrar e julgar e dar duas chapadonas para deixarem de fazer merdas estúpidas, para que nunca haja mentiras nem segredos na nossa relação. 

10 comentários:

  1. Por experiência falo. A minha mãe é a minha melhor amiga. Sabe de tudo sobre mim. Sinto-me super à vontade para contar, desabafar sobre tudo com ela. Mas o meu pai é precisamente o oposto. Não tenho uma ligação nem de perto nem de longe como a que tenho com a minha mãe. Namoro há 8 anos, mas só há 4 é que o meu pai soube e conheceu o meu namorado. Isto porque a nossa falta de ligação é tão grande que não me sinto à vontade para lhe contar o que quer que seja sobre mim. Não tem propriamente a ver com a reacção dele, tem a ver mesmo com a falta de confiança que temos, de ligação, de relação. Por isso consigo perceber muitos filhos que não contam, e escondem coisas aos pais. Às vezes não é com medo do raspanete que vão levar. É mesmo porque chegar à beira deles para lhe contar algo tão nosso é como se estivéssemos a confidenciar algo a um perfeito desconhecido.

    https://jusajublog.blogspot.pt/

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    1. Este caso é diferente, porque não há uma boa relação com uma das partes. Eu referia-me ao facto de quando há boas relações ou, pelo menos, relações minimamente próximas pais-filhos.

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  2. Quando era miúda, obviamente que sentia necessidade de esconder algumas coisas, mas acho que faz parte da idade. No entanto, hoje em dia os meus pais são os meus melhores amigos *.*
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  3. Sem querer ter conversa de psicóloga (até porque não o sou, tu hás-de saber melhor do que eu :D), mas se calhar as pessoas têm esses problemas vindos da infância/adolescência. Eu tinha uma relação atribulada com a minha mãe nessa altura... Ela sempre foi uma mãe galinha, nessa altura ainda mais, e proibia-me de fazer coisas banais. Quando eu as queria fazer, simplesmente não contava... Incluindo ter um namorado. Eu só lhe contei um ano depois de começar a namorar e demorou mais um ano para ela aceitar. Por isso, se eu lhe dissesse "vou ter com o X", ela ia arranjar forma de me proibir, pois na cabeça dela eu era uma criança que precisava de ser protegida (e não era, de certa forma?). Claro que hoje em dia já não temos esse tipo de relação e ela é uma das pessoas com quem mais desabafo (no outro dia liguei-lhe e estive aos berros a dizer porcaria sobre o meu namorado xD), mas ainda há assuntos que são tabu (menos, mas são), como fruto da repressão que sofri durante tanto tempo... Neste momento, estou a pensar como seria a conversa "mãe, quero e vou fazer uma tatuagem" e não seria bonita xD Mas não o iria esconder e nem ela me poderia proibir, a verdade é essa. Também espero, um dia mais tarde, ter abertura suficiente para ter uma relação de apoio e confiança com os meus filhos... É mesmo importante.

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  4. Quando era mais miúda também escondia certas coisas mas faz parte da idade, hoje em dia falo com eles sobre tudo sem problema algum .

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  5. Quando era mais nova escondia algumas coisas, mas acho que não faz sentido nenhum, os nosso pais ajudam-nos sempre que podem
    Style Days Blog

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  6. A minha mãe sabe tudo sobre mim e peço-lhe muitos conselhos. Já o meu pai, deixou de me falar 1-2 semanas há cerca de 1 ano e meio atrás quando lhe disse que namorava. Tenho quase 25 anos portanto nunca vou conseguir entender essa atitude. A partir daí houve algo na nossa relação que desapareceu e mesmo que o sintamos somos ambos casmurros demais para dar o braço a torcer... Nem todos os casos são iguais.

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    1. São situações complicadas. Como já disse num comentário acima, não me refiro a relações mais distantes ou completa falta de relação/ligação com um dos pais. Falava de quando há uma relação boa ou minimamente próxima entre pais-filhos e não nestes casos em específico. Obviamente depende muito de pessoa para pessoa e das relações que se criam, daí o título do post.

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  7. Concordo contigo. Felizmente tenho uma óptima relação com os meus pais, há bastante confiança entre nós, e sei que por muito que não concordem com as minhas escolhas/decisões, ajudar-me-ão sempre no que puderem!

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  8. Concordo contigo e também tenho uma boa relação com os meus pais mas há relações familiares muito complicadas :( conheço uma rapariga que foi posta fora de casa pelo pai e pela madrasta, sabendo que ela não tem onde ficar, nem tem trabalho. E perceber isto?

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