terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O valor da espera

Sou de 92, do tempo das vacas gordas. Ainda assim, nunca tive tantas coisas como vejo crianças de hoje, tempos de crise, a ter. Penso que se trata, essencialmente, de educação. Os tempos mudaram. Claro que há de tudo, não vou generalizar, mas parece que hoje se tem tudo e não se dá valor a nada.

Mesmo que, em criança, os meus pais tivessem forma de me dar (quase) tudo o que eu queria, não o faziam. Não me faltava nada, mas também não tinha tudo em exagero. Os meus pais davam-me, de vez em quando, brinquedos e coisas que eu pedisse fora de épocas festivas, mas aquelas coisas mais caras e especiais eram deixadas para o Natal. Tinha uma ou duas prendas dos meus pais, uma da minha madrinha e uma da minha avó, mais nada. Receber a prenda que queríamos já era fantástico, quanto mais ter muitas! Hoje qualquer criança tem uma lista de prendas gigantesca e recebem quase tudo. Vejo pela minha afilhada que, não tendo pais ricos (nem que para lá caminham, infelizmente), sempre teve várias prendas. Os pais davam imensas, depois os avós, os tios, os padrinhos... Às vezes as crianças ainda nem sabem falar, quanto mais brincar, e já recebem mil brinquedos nos anos e no Natal. Para quê? O que acaba por acontecer é que rasgam os embrulhos e nem dão atenção ao que lá está dentro, na ânsia de abrir o próximo. Depois são tantos que nem sabem por onde começar a brincar e acabam por não brincar com metade do que recebem. 

Hoje em dia basta chegar a casa e dizer que querem e as coisas aparecem. Porque agora os pais também estão muito mais preocupados a fazer com que os filhos "não fiquem para trás" em relação aos amiguinhos. Quando eu chegava a casa e dizia que queria a coisa x porque os meus amigos tinham, se os meus pais não pudessem dar-me, não davam e pronto. Esperava por uma ocasião especial e se os meus pais tivessem dinheiro na altura e achassem que podiam, davam-me. Agora os pais até fazem créditos só para dar o novo iphone aos filhos porque todos os amiguinhos têm e ele não pode ser o único a não ter. 

Vemos pessoas que se endividam completamente só para fazerem boa figura. Porque os filhos querem a coisa x, y e z e têm que ter tudo. Porque os amigos dos miúdos vão todos ter a coisa y e eles também têm que ter para não ficarem tristes. Já vi miúdos fazerem birra porque receberam o que queriam mas numa cor diferente da que pediram. É inaceitável para mim. E perde-se completamente o valor da espera... Saber esperar pelas coisas é um valor muito importante, faz-nos perceber que as coisas só chegam quando têm que chegar e até lá temos que ter paciência. Não é só pedir e as coisas aparecem. Na vida real, na vida adulta, quando queremos muito alguma coisa temos que trabalhar e juntar dinheiro para as ter. As crianças, ao terem tudo de mão beijada e sem espera, aprendem erradamente que podemos ter tudo o que queremos, quando queremos. Esperar pelas coisas só lhes dá um valor maior de conquista que qualquer criança deveria aprender...

20 comentários:

  1. Sou como tu. Também esperava pelo Natal para pedir coisas mais caras. Acho que hoje o que acontece é que os pais querem de alguma forma compensar os miúdos por não estarem tão presentes na vida deles, que lhes compram tudo para os manter felizes...

    Beijinho
    The-not-so-girlygirl.blogspot.com

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    1. Verdade! Compensa-se com bens materiais a falta de tempo e de amor, muitas vezes.

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  2. a educação de hoje não é a mesma que há 10 anos atrás :) Hoje parece tudo fácil de adquirir e ter

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    1. Não é e, em algumas coisas, ainda bem que não é! Mas hoje em dia há um facilitismo que não me agrada nada. Aparece tudo quando querem e pronto.

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  3. [eu adorei o livro, adoro todos os livros dela]

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    1. É dos meus preferidos dela. Foi mesmo surpreendente aquele final!

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  4. Muito mais importante de ter é ser! As pessoas esquecem-se disso!

    http://sosweetgirlythings.blogspot.pt/

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  5. Ainda este natal me apercebi disso. Sou de 90 e felizmente os meus pais também sempre me puderam dar aquilo que eu pedia, mesmo que não me dessem na altura que eu pedia, davam 1 ou 2 meses depois para que eu percebesse que não podia ter tudo na hora como queria.

    Este natal vi a minha prima ter um iphone 6 ou 7 com 12 anos!!! Acho ridículo. Que queiram dar um telemóvel para que a miúda esteja contactável ok, agora um iphone!!!

    Da mesma forma que vi uma colega de trabalho que se queixa constantemente que não tem € dar 450€ por um iphone 6 em segunda mão para a filha!!

    Enfim, prioridades!
    Depois queixam-se que os filhos são assim e assado.

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    1. É uma questão de bom senso, acima de tudo, as hoje em dia parece que é algo demasiado exigente para a maior parte das pessoas.

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  6. Compreendo-te perfeitamente, mas acredito que também deva ser difícil para os pais que provavelmente se sentem na obrigação de o fazer. A pressão da sociedade que se vive hoje em dia é algo horrível e nem sequer temos consciência da dimensão dela.
    THE PINK ELEPHANT SHOE // INSTAGRAM //

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    1. Acredito que qualquer pai tenha tendência a fazer os possíveis e impossíveis para que os filhos sejam felizes. E ser feliz, em idades precoces, muitas vezes passa por ter o que os outros têm. Claro que, como pais, não será fácil dizer que não a um filho, mas estamos a falar de coisas supérfluas e não de bens de primeira necessidade. Há que haver um pouco de bom senso, senão qualquer dia não há meio termo!

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  7. Nasci no mesmo ano e não poderia estar mais de acordo contigo. A culpa não é tanto das crianças mas sim dos pais que dão tudo e fazem com que posteriormente, na escola, os filhos sejam maus com as outras crianças que não podem ter o mesmo e isso pode gerar muitas coisas, infelizmente...

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  8. Completamente verdade ... concordo!! Catarina Dias infelizmente vejo isso todos os dias acontecer à minha volta... é uma total falta de definição de valores e do sentido da vida! Algumas pessoas vivem para ter não para ser...e sou de 73 já agora:)

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    1. Agora é que disse tudo Paula, "Algumas pessoas vivem para ter não para ser". Quando deveria ser ao contrário. Esperemos que essas crianças comecem a entender que o importante na vida é mesmo o Ser e não o Ter, e que mais vale ser reconhecido pelo ser do que pelo ter. Até para o bem da nossa sociedade futura.

      Beijinhos Paula.

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  9. Sou de 93 e identifico-me com o que escreveste, mas não acho que o problema seja da geração, tem mais a ver com os pais. Quando era miúda tinha as minhas colegas que tinham "tudo", montes de roupas e sapatos, mochilas caríssimas, telemóveis avançados (ou telemóveis demasiado cedo, que nunca percebi a utilidade de um telemóvel quando estás na primária a 2 minutos de casa/família, enfim), entre outras coisas. Eu nunca pedi grande coisa aos meus pais, nunca fiz uma "birra" para ter isto ou aquilo. Tive o primeiro telemóvel que tirava fotos no 11º ano e o primeiro portátil e net em casa no 12º. Os telemóveis "bons" que tive fui eu que os paguei com o meu dinheiro. Tudo isto enquanto havia muita gente que tinha tudo o que queria de mão beijada.

    Quanto às gerações mais novas, vejo muitas crianças e adolescentes a ostentarem-se porque têm isto de melhor e a mais que os outros e acho ridículo. Também tenho irmãos mais novos e são como eu. Pedem as suas coisas, mas não fazem grande força porque sabem que não se pode ter tudo. Por exemplo, a minha irmã tem 7 anos e este natal, ao ver os catálogos de brinquedos dizia "este é giro, mas é muito caro, aqueles número é muito grande". Por isso é que digo que tudo vai da educação que se dá/recebe.
    ps. desculpa pelo comentário enorme

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    1. Claro que a culpa é dos pais. Como dizia acima, compreendo que qualquer pai tenha dificuldade em dizer que não a um filho e queira que este se sinta feliz e igual aos outros. A questão é que não parece haver aquele trabalho de casa de ensinar que não se pode ter tudo, que há coisas que não são razoáveis (mesmo que os amigos tenham), que há que esperar, que a vida não é só pedir e receber.

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    2. E incentivar a que os filhos tenham tido igual aos outros é incentivar a que estes sejam apenas mais uns levados pelas massas e não estimulem o pensamento e personalidade próxima

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  10. Concordo.
    Nasci um ano antes e comigo as coisas aconteciam tal e qual como contigo.
    E sabes o que os meus avós paternos me davam - todos os anos no Natal? um pijama de 7 euros e meio, da feira. Todos os anos menos naquele em que me deram um fato de treino feio do Dragon Ball no mesmo valor! O pior era saber que ao meu primo, que era da mesma idade, davam brinquedos que já na altura custavam 20/25 euros!
    Os meus pais também me davam um presente e quem sabe uns chocolates. Dentro das possibilidades e da razoabilidade.
    Só tive uma ou duas barbies porque consideravam muito caras. Em vez de barbies tinha nancys.
    Acho que aprendi muito com isso e hoje, infelizmente, apesar do dinheiro não abundar nada, estou muito mais mimada do que na altura. Porque hoje tenho quase sempre tudo o que eu quero. Não é desculpa, mas estou a tentar sair duma depressão e tenho encontrado nisso um "escape", uma fonte de "realização".
    Na minha opinião, os pais deveriam incutir esses valores, essa espera, nas crianças e tentar fazer com que os não perdessem à medida que atingem a adolescência e maturidade.
    Hoje em dia já vi crianças que estragam os brinquedos todos, utilizam-nos como se fossem descartáveis, só para brincar um dia e deitar fora. Eu - no meu tempo - estimava e muito os meus brinquedos. Ainda tenho a maioria, e em bom estado dada a "idade avançada".
    Mas os tempos mudam e não podemos dizer a ninguém como educar os seus filhos. Apenas devemos educar os nossos de acordo com os nossos valores e com a pessoa que desejamos que eles sejam quando crescerem, para o melhor deles e para um mundo melhor :)

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    1. Sem dúvida que cada um sabe da forma como cria e educa os seus filhos! Longe de mim estar a dizer a alguém como o fazer, apenas é uma opinião. Penso que há coisas completamente desnecessárias e há pessoas (que eventualmente se tornam pais) sem bom senso nenhum, que depois transmitem estes maus pressupostos às crianças. Mas cada um lá sabe o que dar aos seus filhos. Eu não faço ideia como vou ser um dia que tenha os meus.

      Sei que ter coisas em certas idades é algo quase essencial ao existir, mas em idades mais avançadas e embora seja sempre agradável ter coisas que gostamos, é importante saber distinguir o ter do ser. Eu não serei mais feliz ou melhor pessoa por ter mais um tareco qualquer, mesmo que o queira muito. É um problema da sociedade em si, porque começamos desde pequenos a acreditar que só tendo x ou y é que vamos ser iguais aos outros, mais felizes, melhores. Mas isso já são outros quinhentos :)

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  11. Eu sinto o mesmo em muitas pessoas que vejo, especialmente das gerações que vieram a seguir aos meus pais. Creio que, por terem recebido pouco, agora quiseram dar mais, porque podem e para compensar, talvez, o tempo que não têm para os filhos.
    Acho também que, uma vez que a educação que damos aos nossos filhos é reflexo daquilo que somos, talvez porque agora consigamos comprar mais coisas para nós próprios, também queiramos o mesmo para os nossos filhos.
    Em todo o caso, eu sou de 86 e vejo na minha geração muita gente a não querer dar "tudo e a todo o momento" aos filhos. Talvez por já terem vistos os exemplos de 8 e 80.
    Eu sou uma recente mãe e quero seguir o bom exemplo que os meus pais me deram, não dar tudo, fazer desejar, sentir o merecimento, etc. Porque acho que, como dizes, dar tudo não é saudável e cria, sem dúvida, a meu ver, adultos egoístas e inseguros.
    Adorei o post! Acho muito importante fazer esse alerta!

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