quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O drama da escolaridade obrigatória

Pessoas que acham que a escola não serve para nada, que a escolaridade obrigatória só veio prejudicar as pessoas porque há miúdos que não gostam de estar na escola e já podiam estar a trabalhar mas são obrigados a estudar, pobrezinhos!, que a escola não tem aplicações para o dia a dia e que a cultura aprende-se em casa e mimimi... vão morrer longe!

Juro que não entendo como é que há pessoas que podem dizer barbaridades destas. Parece que a escola é um sacrifício, uma tortura para as crianças/adolescentes, que não se aprende nada e só se anda lá a gastar tempo e dinheiro porque, toda a gente sabe, estudar não serve de nada se depois acabamos todos no desemprego. A questão é que nem toda a gente tem que tirar cursos superiores! Obviamente o panorama está péssimo, não há empregos na área de estudos para toda a gente e tirar cursos superiores acaba por ser, do ponto de vista prático, pouco proveitoso. Mas a escolaridade, a educação, não tem só a ver com a profissionalização das pessoas! Então e o desenvolvimento, o enriquecimento pessoal? Então e as aprendizagens, as competências que se adquirem? 

Enerva-me ouvir este discurso de pais em frente aos filhos, ainda por cima. Qualquer miúdo detesta a escola e acha que a escola não lhe vai servir para nada, mas se ainda por cima tem o apoio dos pais para achar que realmente estudar não vale de nada, que incentivo terá para estudar, ter notas boas, passar de ano?  Depois parece que agora toda a gente "tem pouca capacidade". Tira negativas porque "não tem capacidade"; não está atento nas aulas porque "não tem capacidade", reprova de ano constantemente porque "não tem capacidades". Eu digo-vos as capacidades! A não ser que uma criança tenha necessidades educativas especiais, o plano escolar tem que servir para todos da mesma forma. Se há miúdos mais inteligentes que outros? Certamente, mas todos têm capacidade de chegar a um nível minimamente satisfatório se se dispuserem a estar atentos nas aulas, a estudar, a fazer as tarefas que os professores mandam para casa, se se quiserem esforçar. Uns podem precisar de estudar mais que outros, mas isso não significa que não possam atingir os resultados esperados.

No meu tempo de escola, só reprovavam duas ou três pessoas por ano, numa turma. Normalmente eram os alunos que se estavam a marimbar para aquilo tudo, que não estudavam, cujos pais não queriam saber se eles aprendiam e faziam as coisas ou não. Hoje em dia qualquer turma tem mais de cinco reprovações. Porquê? Porque já não são só dois ou três os alunos que não vão às aulas, que não se esforçam, que não estudam. Os pais ainda incentivam a não quererem saber da escola porque é uma prisão e não serve para nada. Depois veio a politica do facilitismo com cursos profissionais de treta, em que nem materiais têm para os alunos aprenderem, só para tirarem os miúdos com muitas reprovações das escolas. 

E aquele argumento do "eu só fiz o quarto ano e estou aqui muito bem, para que é preciso agora andar 12 anos a estudar? É só para os prender na escola!" como se o estado não tivesse despesa com os estudantes e quisesse tê-los nas escolas só para ganhar dinheiro com eles... E depois, que tipo de pai não quer que os filhos tenham uma educação melhor que a deles? Só porque eles eram obrigados a desistir da escola cedo para ajudar a sustentar a família, querem fazer o mesmo aos filhos? Em que mundo e em que tempos vivem estas pessoas? 

Mas, enfim, ainda haveria muita coisa para dizer sobre este assunto que tanto me tira do sério mas o post já vai longo. 

4 comentários:

  1. Esses mesmos pais que dizem que têm a 4ª classe e estão bem, também deveriam saber que há diferenças entre o ensino de antes e o de agora .

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  2. Credo, felizmente nunca ouvi esse tipo de comentários por parte de pais! Acho que ficaria com cara de parva se dissessem uma coisa dessas à minha frente...

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  3. Concordo absolutamente, e isto é um ciclo vicioso, porque o facilitismo que referiste é de loucos. Não só nos cursos profissionais (muito poderíamos falar sobre isso, porque há profissionais e profissionais), como no ensino "convencional". Cada vez se aprende menos, não puxam pela capacidade de raciocínio. Estamos a criar monos.

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  4. Concordo contigo em tudo que dizes, a educação é importante e é óbvio que os pais devem querer o melhor para os filhos, MAS... há miudos para quem andar na escola é efectivamente um tormento. Alguns até tem capacidades mas não gostam daquilo, gostam de coisas práticas, gostam da vida de trabalhar a sério. E é isso que os leva a não ter capacidades, porque estão completamente contrariados. Lidei com miúdos para quem ir para a escola era um verdadeiro tormento. E até a mim me custava ver o que lhe custava estar a estudar mais de meia hora seguida. E sabes uma coisa, a cultura é de facto muito importante, mas nem todos precisamos de ser especializados em alguma coisa. Eu, que sou licenciada, sou a primeira a dizer que também são necessárias pessoas a trabalhar nos ramos que se vão perdendo como a construção ou o têxtil ou a agricultura. E convínhamos tanto eu como tu estudamos coisas que hoje não nos servem para rigorosamente nada!!
    E uma coisa é certa, essas pessoas que dizem que a 4ª classe lhes chegou, sabem muito mais as vezes do que alunos que estudam 12 anos!!

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