quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Preso por ter cão e preso por não ter...

Acabei o curso há já quase um ano. Não posso passar à prática da profissão que escolhi por amor  antes de estar inscrita na Ordem da mesma. Não me posso inscrever como membro efetivo da Ordem sem  antes fazer um estágio profissional que ninguém está disposto a proporcionar-me. Enviar currículos diariamente, procurar todos os sites de emprego, recorrer a amigos de amigos (com o bendito do fator C) e bater a todas as portas não tem ajudado em nada. Uma pessoa fica desapontada e começa a pensar que, não desistindo do sonho de exercer a profissão para a qual tanto estudou e se sacrificou durante 5 anos da sua vida, se calhar está na altura de pensar arranjar emprego noutras áreas. Sucede que os empregos ditos de jeito, com horários decentes, remunerações minimamente aceitáveis e que exijam um certo nível de qualificação têm como porta de acesso o estágio. Parece que nenhuma empresa está disposta a contratar pessoas que entrem em regime laboral dito normal, tendo que começar tudo por um estágio profissional que poderá ou não ser aprovado, sendo que depois a permanência na empresa nem sempre está assegurada. Acontece que ninguém pode fazer estágio profissional pelo IEFP (como quase todas as empresas preferem) numa área que não a das suas qualificações. Vai daí, a pessoa não tem hipóteses de inserção no mercado de trabalho por via das suas qualificações diretas, através do curso que tirou, nem pode tentar a sua sorte noutra área profissional que não a das suas qualificações.

Ora bem, não tenho forma de exercer a profissão para a qual estudei e me qualifiquei, nem tenho hipótese de desenvolver outras competências num setor de atividade diferente do que estudei pois não estou apta a fazer estágio noutra área que não a minha e todas as empresas parecem precisar apenas de estagiários. Ou decido tirar outro curso e aí sim, tentar a minha sorte noutra área e tendo a possibilidade de fazer estágio tendo em conta essas novas qualificações (e com que disponibilidade mental e financeira se tira outro curso?) ou estou condenada a esperar para sempre a minha oportunidade que pode nunca chegar. Assim sendo, o meu futuro profissional depende de empresas que queiram trabalhadores sem exigir estágio como forma de entrada na mesma ou estou condenada a trabalhar eternamente em lojas e pastelarias. 

É este cenário para os jovens com qualificação superior em Portugal. Não sei se ria ou se chore. 


*Pela primeira vez na vida fui a uma entrevista e, apesar do recrutador ter gostado de mim e achar que era ideal para aquele trabalho, não fui selecionada por ter demasiadas qualificações para aquele trabalho. Já tinha ouvido histórias semelhantes mas nunca pensei que fosse mesmo verdade, de tão ridículo que é.

15 comentários:

  1. Desculpa a indiscrição, mas qual é a tua área?
    Escrevi isto sobre a minha experiência: http://tudomaisquepalavras.blogspot.pt/2016/11/true-story.html#comments.
    Também estou a ter enormes dificuldades, porém entrevistas n me faltaram. As condições é que eram deploráveis. Dependendo da tua área talvez te possa dar umas dicas :)

    Já me aconteceu isso, sabes que os empregadores preferem estagiários inexperientes, pouco qualificados (sem especialização a nível de mestrado) e com médias baixas porque são os que mais facilmente se acomodam por falta de opção. São a manobra mais barata que existe. E perdoem-me aqueles que estejam nestas condições, mas é a verdade. Já me tentaram colocar nesse lugar e eu n aceitei, mas n sei o que me reserva o futuro e se um dia n serei eu a passar a moça de recados de alguém.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A questão nem passa pelas condições do estágio, é que nem para estágio sou selecionada! Claro que ao início ninguém pode esperar fazer logo o que gosta e ganhar imenso, por isso estou mais do que preparada para passar por essas coisas todas. Se ao menos fosse chamada para entrevistas, sequer!

      Excluir
  2. É horrível o mundo laboral. Eu consegui estágio profissional meses depois de ter terminado a faculdade, mas a experiência foi para esquecer. Este mês faz 4 anos que terminei e deixei aquele lugar. Desde aí, nunca mais me apareceu nada na área. Faço o que posso para ganhar uns trocos e com o dinheiro que guardei da altura em que trabalhei voltei aos bancos da faculdade e meti-me num doutoramento. Não está a ser fácil. Acabo por estar ocupada com tudo aquilo em que me vou metendo... Mas ao final do mês, o saldo é sempre negativo.
    Consigo encaixar-me perfeitamente naquilo que descreves. Muitas vezes vi melhores ofertas fora da área do que dentro da área.
    O comentário anterior lembrou-me de uma situação de entrevista que eu tive. Não fui selecionada, por uma simples pergunta na entrevista relacionada com diagnósticos (mas esta conclusão veio depois de meses de espera por uma resposta, que nunca chegou).
    Há dias muito, muito maus. E apesar de ver a minha idade a avançar, quero acreditar que ainda hei-de conseguir chegar onde sinto que é o meu lugar feliz.
    Não desistas, segue em frente. Se hoje caíres, lambe as tuas feridas e segue em frente.
    Não sei como é o teu espanhol, mas deixo-te aqui a sugestão de um site com cursos online muito porreiros. O site é: https://miriadax.net . Tem alguns ligados à psicologia. Estou a fazer um de coaching e estou a gostar bastante. Se tiveres vontade, experimenta.
    Força aí.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O problema de tudo isto é ver a idade avançar e nós nesta situação precária! Não dá para fazer uma vida independente assim, sem saber o dia de amanhã. Claro que nunca ninguém sabe, mas sem o mínimo de estabilidade o que podemos fazer?

      Obrigada pelas sugestões! E boa sorte :)

      Excluir
    2. Pois é, M. Isso é que me frustra ainda mais: o avançar do tempo. Sinto que a vida estagnou. E como disse há dias muito, muito difíceis. Quando falta realização pessoal e profissional, as nossas emoções esgotam-se.
      Não sei com que relações ficaste na tua Universidade, mas podes sempre tentar uma bolsa de investigação ou se tiveres cabeça embarcar num doutoramento. As bolsas de investigação aparecem todas aqui: http://www.eracareers.pt/Search/index.aspx?task=advancedSearch&idc=4(talvez já conheças o site) pode ser para a tua faculdade como para qualquer outra. Aproveita tudo o que vires. Eu cheguei a ser chamada para uma entrevista, numa faculdade diferente da de onde me formei. Correu bem, gostei da experiência, mas fiquei em 3 lugar :/.

      De nada. Faz-nos bem, dar a mão a outros que precisam. Obrigada :)

      Excluir
  3. Não é fácil para ninguém e acima de tudo é frustrante. Mas acredita que de um dia para o outro vai mudar. Continua a enviar CVs, e olha que começar pelo estagio do IEFP não é assim tão mau. É mesmo uma porta de acesso ao mundo laboral. beijinhos!

    ResponderExcluir
  4. Não sou licenciada, tenho apenas um curso de técnica de turismo ambiental e rural. Quando terminei o curso, e não tenho possibilidade para ir para a faculdade, meti-me a enviar currículos para a área. Apesar da minha média ser boa, e ter realizado 2 estágios curriculares com nota excelente (um numas termas, como recepcionista e outro na Quinta de santo inácio como guia turística), exigiam sempre licenciatura e/ou experiência mínima de 2 anos. Andei quase 1 ano nisto, até que desisti e comecei a aceitar tudo o que aparecia. Cafés, pastelarias, restaurantes, confeções de roupa, etc. Quase nenhum fiz descontos, e quando contava esta lenga-lenga no iefp, sempre que me iria inscrever, ficavam indignados como aceitava trabalhar sem caixa. Ora bem, eles não têm mesmo noção do que se passa na vida real, só pode. Uma pessoa precisa de dinheiro ao fim do mês, por isso tem que se aproveitar o que aparece. Infelizmente é o país que temos.
    Beijinho

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É muito fácil falar quando se está de fora da situação. Claro que as pessoas vão aceitar trabalhar em condições precárias, sem caixa, sem seguros, sem nada... Ao menos vem algum dinheiro. Percebo perfeitamente. Se é a situação ideal? Claro que não, mas vamos fazer o quê?

      Excluir
    2. É muito fácil falar quando se está de fora da situação. Claro que as pessoas vão aceitar trabalhar em condições precárias, sem caixa, sem seguros, sem nada... Ao menos vem algum dinheiro. Percebo perfeitamente. Se é a situação ideal? Claro que não, mas vamos fazer o quê?

      Excluir
  5. Eu já chorei, já me ri e agora fui correr pela vida. Virei-me para outros interesses, outros sonhos. Além de ter uma média muito boa, a verdade é que nasci no momento errado. Acabada de formar em plena crise não é um bom plano, devia ter nascido dez anos mais cedo =)

    ResponderExcluir
  6. Deixa-me adivinhar, tiraste Direito?
    Sabia que a situação em Portugal estava mal (um dos motivos pelos quais emigrei) mas não pensei que estivesse mal ao ponto de ser difícil arranjar estágio profissional...
    Tanto investimento da parte do Estado e das famílias... pela primeira vez temos uma geração com estudos superiores... e tudo isto para nada. Eu não sei se estou mais triste, ou mais chateada, com o nosso país.

    ResponderExcluir
  7. Entrar no mundo laborar não é nada fácil!
    Força! Melhores dias virão!

    ResponderExcluir
  8. Estou numa situação muito semelhante... Força!!

    ResponderExcluir