quarta-feira, 8 de junho de 2016

medos

Fui uma criança protegida mas a quem também era dada alguma liberdade. Não ia para a escola sozinha, mas depois que comecei a frequentar o 7º ano já me era permitido ir e vir da escola com os meus amigos. É um facto que a minha mãe é a pessoa mais medrosa e ansiosa à face da terra e que nunca se coibiu de tecer os comentários mais despropositados e que, percebo agora, podiam tolher qualquer criança mais suscetível (como o meu irmão, que é um medricas de primeira). Sempre fui avisada para ter cuidado, não falar com estranhos, não andar sozinha, evitar certos sítios ou pessoas e todas essas coisas que qualquer pai bem intencionado transmite aos filhos. Mas com a minha mãe era sempre mais que isso: qualquer coisa podia ser transformada em algo catastrófico no pensamento dela e ela sempre o transmitiu abertamente. 
Ainda assim, não me tornei numa pessoa amedrontada. Cuidadosa, sim, consciente de todos os perigos e que faz de tudo para os evitar, também. Mas não medrosa a ponto de deixar de fazer a minha vida normal. Sempre me senti segura onde vivo. Nunca tive medo de sair à rua, fosse a que horas fosse. Até que fui estudar e viver para o Porto.

Uma grande cidade acarreta mais riscos. Todos os dias se ouvia falar de um assalto, de alguém que foi abordado na rua. A pessoa não é medrosa, mas é consciente. Tem mais cuidado. Mas daí a ter uma paranóia com isso é um instantinho. Cheguei a esconder o telemóvel na parte de dentro das calças, junto à cintura, achando que seria mais difícil de me roubarem. Na altura em que se falou imenso de assaltos à porta da minha faculdade, e que coincidiu com a época de exames, cheguei a pedir ao meu pai que me fosse buscar porque tinha medo de fazer o trajeto até à paragem de autocarros. Não posso esconder que esses anos de cuidados e medos me fizeram estar mais atenta a potenciais roubos e agressões. Até que fui roubada no meu local de trabalho.

Agora tenho muito medo disso. Que me levem o computador, se o transportar na rua. Que me levem o telemóvel. Que me façam mal. Que, vendo que não tenho nada de valor comigo, me magoem. Sei lá. É uma sensação de impotência grande porque nunca se sabe quando pode acontecer então estamos sempre em alerta. Faço os piores cenários na minha cabeça, mas tento não lhes dar mais importância que não a exigida para ter uma atitude cuidadosa comigo e com os meus pertences. Ainda assim, esta sensação de perigo eminente é algo que não gosto, que me faz sentir de uma maneira em que não me reconheço. Não sou assim! Não quero ser a pessoa que tem medo de tudo. Mas no mundo em que vivemos, começa a ser cada vez mais difícil ter uma atitude de completa segurança.

6 comentários:

  1. Essa sensação deixa-nos bastante ansiosas. Também já me aconteceu algo assim quando me deixaram sozinha na frente da loja no meu local de trabalho e me apareceram dois homens a fazer perguntas super absurdas. O meu primeiro pensamento foi fechar a registadora.

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  2. É muito complicado... Parece que o perigo está à espreita, por mais atentos que estejamos, há sempre riscos. E eu já fui assaltada, quando cheguei ao carro do meu namorado tinham me levado a mala de viagem (iamos para o algarve). Foi a minha Nikon, os meus óculos de ver CH, um iPod, uns RayBan aviadores do meu pai quando era novo... Um sem fim de lágrimas que foi essa passagem de ano para mim :(

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  3. Respira fundo e descontrai..o perigo pode estar ao virar da esquina em quAlquer lugar....é normal ter medo mas não deixes que te condicione a vida..

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  4. Sabes o que é engraçado? Eu sinto-me mais insegura a andar no Porto do que em Londres :s
    Beijinhos,
    O meu reino da noite ~ facebook ~ Bloglovin'

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  5. Eu vivo no centro de Lisboa há 7 anos e nunca me senti insegura. Acho que problemas acontecem em todo o lado. Mas compreendo a tua apreensão. Em locais grandes há mais hipóteses de algo correr mal.

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  6. Eu não diria que sou muito medrosa, até porque em criança e adolescente foi-me sempre dada a liberdade para andar sozinha. Comecei a voltar da escola sem a minha avó no quarto ano e a primeira vez que saí à noite, para pedir doces no Halloween, tinha doze ou treze anos. (O engraçado é que, nesses primeiros momentos, os meus pais seguiam-me disfarçadamente para se verificarem de que estava bem e verem como me desenrascava. Para eles era uma espécie de brincadeira :P)

    Tenho, no entanto, medo de andar sozinha à noite, porque as nossas cidades são muito desertas. Tento lembrar-me de que vivemos num país seguro, mas há sempre um desconforto.

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