quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Não me pagam para isto #3

Aqueles clientes armados aos cucos que querem sempre saber da vida da pessoa que está atrás do balcão. Estão sempre todos muito preocupados que eu, tão novinha, esteja lá trancada o fim de semana todo. Quantas horas de almoço tens? E que não possa ir namorar como as outras miúdas da minha idade. Isto supondo que tens namorado, tens? Também se afligem muito que eu esteja ali a trabalhar, aquilo não é sítio para mim, uma pessoa quase com um curso. Já acabaste o curso, já? Uma futura _______ (estás a estudar o quê mesmo?) a servir às mesas. E depois, claro, é uma canseira. Então mas na segunda tens logo que ir para a faculdade cedo não é? Onde andas a estudar? A viagem fica puxadita não é? Vais como? Ficam ao menos descansados por saberem que me compensa monetariamente os entraves todos daquele trabalho. Ao menos dá para as tuas coisinhas, não dá? É o que interessa. Mas se me vêem mais cansada ou com cara de sono, ficam muito preocupados. Não dormiste bem hoje? Foste sair depois do trabalho não é? Que não ando a descansar bem, que preciso de descansar mais. Só pessoas prestáveis e cheias de amor para dar. Gostam tanto de mim que até me dão sugestões. Devias pedir umas folgas de vez em quando. Devias aproveitar a hora de almoço para descansar as pernas. Devias aproveitar a hora de almoço para ir namorar. Devias aproveitar a hora de almoço para sair. 

E quando, por algum motivo que não diz respeito a ninguém que não à minha entidade patronal, eu não vou durante uma manhã, por exemplo? Na próxima vez que me vêem é todo um mistério. Hoje estás cá? Ontem viemos e não estavas, pensei que estavas doente. Ah, mas foste só aproveitar uma folguinha não é? Aproveitar para sair, para namorar, fazes tu muito bem! Sem sequer saberem o que ando a fazer. Ficam danados se não dou conversa, dá-me um gostinho especial. 

Existe um montão de situações que nem me lembro agora, mas em que as pessoas se colocam no ridículo só para saberem da minha vida. Quem me vai buscar ao trabalho. Se fui para o trabalho a pé ou de carro. E se não fui de carro, porque é que não fui? O paizinho não emprestou o carro hoje? Quantas horas faço por fim de semana. Quanto ganho. Se sou paga a tempo e horas. O que é que o meu namorado acha de eu trabalhar ao fim de semana. O que é que ele fica a fazer quando eu estou a trabalhar (???) Se tenho problemas na relação por causa disso (???) Tudo coisas que já me perguntaram. A curiosidade destas pessoas não tem limites.

6 comentários:

  1. Oh god...q calhandrice pegada.. Há gente que não tem mesmo limites nem vergonha na cara!

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  2. o bom português é mesmo assim... a mim dá-me um certo gozo dizer o que as pessoas querem ouvir, mesmo que não seja realidade, ninguém tem nada a ver com a minha vida e pelo menos deixo as pessoas contentes! eheh

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  3. É típico. A mim normalmente dizem que é uma exploração obrigarem-me a estar em pé tantas horas seguidas e beca beca

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  4. É mesmo verdade, as pessoas são umas cuscas do pior! Eu não faço questão de esconder nada, mas também não me ponho a contar o que querem saber... Bem, força para ti! E muita muita paciência (bem precisas). :)

    http://entreosmeusdias.blogspot.pt

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  5. No outro dia fui à padaria aqui do sítio, e reparei que uma senhora disse para a miúda "ah, estás quase a começar a faculdade, não é?" e falaram sobre isso. Quando são clientes só genuinamente simpáticos e rotineiros, ok.. Mas isso é mesmo o ridículo :o

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