quinta-feira, 11 de junho de 2015

Questões que me deixam fora de mim


Ontem estava a assistir à reportagem da SIC sobre cesarianas e logo surgiu aquela velha afirmação:"Partos por cesariana/com epidural não são partos a sério. Essas mulheres não sabem o que é ter um filho". Tira-me completamente do sério, fico possuída! Já perdi a conta às vezes que ouvi coisas deste género. 
Eu não sou mãe, nunca passei por um parto nem coisa que se pareça, mas percebo que haja mulheres que querem ter um parto o mais natural possível. E também percebo que existem formas de ter um parto o menos doloroso possível que têm contra-indicações. Isto é como em  tudo na vida: há sempre vantagens e desvantagens. Mas enerva-me solenemente esta necessidade que algumas pessoas sentem de ser fazerem de mártires sofredores. 

Mais uma vez, respeito e até percebo quem quer ter a experiência mais natural possível, sem ajuda de drogas ou outras formas que possam atenuar a dor. Cada um com a sua ideia, desde que não prejudique nem a mãe nem o bebé. Cada mulher tem o direito de decidir o que faz com o seu corpo. E se querem passar pela experiência ao natural, como nos antigamentes, então tudo bem. Mas depois há as outras que parece que o fazem só para poderem dizer aos outros que são muito sofridas, que passaram por um parto doloroso. Já assisti a verdadeiros despiques, a ver quem é que tinha sofrido mais ou durante mais horas, como se isso fosse preditor do amor que depois se sente pelo bebé. Há sempre o argumento de que antigamenete não havia epidural e os bebés nasciam na mesma. Claro, antigamente também não havia anestesias, mas não é por isso que agora vou ao dentista e peço para me arrancarem dentes a sangue frio. 


O que me chateia é este fundamentalismo de algumas destas mães que quiseram/puderam ter um parto natural, mas depois criticam as outras que não o quiseram ou não puderam mesmo ter. Parece que andamos aqui a medir quem é mais mãe pelo nível de sofrimento na hora do parto. 

Pessoalmente, e agora que ainda não sou mãe (um dia posso mudar de ideias, sei lá eu), acho que não vou querer agendar o parto ou marcar cesarianas só porque sim, por medo da dor (embora não condene quem o faça: lá está, cada mulher escolhe o que é melhor para si). Gostava que fosse uma coisa natural nesse aspeto: que nascesse quando achasse que estava na hora, sem agendas nem prazos marcados. Mas não direi que não a pain killers, que eu não nasci para mártir. Se tiver essa possibilidade, porque raio haveria de querer sofrer mais? Quero lá saber das fundamentalistas (minha mãe incluída), se eu puder ter um parto vaginal sem (muitas) dores, é mesmo isso que eu quero, independentemente do que depois as outras mães possam dizer. Cada uma de nós deve estar consciente dos riscos, obviamente, mas também daquilo que quer para si.
Faz lembrar a brigada das mamas, sempre a condenar quem não amamenta (que é outra coisa que me tira do sério). Estas questões da maternidade levantam sempre muitas discussões, muitas acusações, muitos extremismos. O pior de tudo? Mais uma vez, são as mulheres a serem más umas para as outras, a perpetuarem a ideia de que viemos ao mundo para sofrer e devemos aguentar todas as merdas estoicamente, porque só assim é que somos "mulheres a sério". Poupem-me.

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