terça-feira, 26 de novembro de 2013

fosse a vida uma pessoa e mandava-a à merda


Hoje tive consulta com uma nova cliente, visto que a cliente que estava a acompanhar desistiu do processo. Estava com uma sensação estranha em relação a esta nova consulta, confesso. Sentia uma coisa esquisita, como se algo não estivesse bem; nem sequer estava entusiasmada com isto, como costumo sempre ficar. Pois bem, chega-se a hora, a cliente começa a falar e foi como se me tivessem dado um murro no estômago. O problema dela é exatamente o mesmo problema pelo qual estou a passar, com a única diferença de que o dela já teve solução (e que é o desfecho que eu temo que o meu vá ter e que rezo todos os dias para que não aconteça). Tem tantas coisas idênticas, tantos pormenores parecidos, que nem acreditei quando comecei a ouvir. A senhora desata a chorar num pranto, a contar o problema, e eu só pensava tirem-me daqui! Eu não acredito nisto! Oh meu Deus!!! Isto não me está a acontecer. À medida que ela ia falando eu sentia um aperto cada vez maior no peito e os olhos cada vez mais húmidos. A esta altura eu só já pensava que o que mais me faltava era desatar a chorar também. 
Ela falava e eu revia-me em tudo o que ela dizia, desde as forças até às fraquezas, as vulnerabilidades, as preocupações, as dúvidas e os medos. Era como se eu fosse eu ali, naquela cadeira, a contar a minha história, só que com alguns detalhes diferentes. Cada vez que a Dra falava era como se estivesse a dirigir-me aquelas palavras a mim, porque eu senti que era mesmo aquilo que eu precisava também. 
Lá acabou a consulta, eu de rastos, com pena dela...e minha. Ela saiu e eu fiquei com a orientadora para discutirmos o caso, como é costume. E eu só pedia a todas as alminhas para não começar a chorar, para pensar noutras coisas, para ser objetiva. A orientadora pergunta-me o que é que se passa, que percebeu que alguma coisa não estava bem comigo. Nó na garganta. Lindo serviço, ia começar a chorar à frente dela, que vergonha, que falta de profissionalismo. Lá me diz ela "É que a M. é muito querida e tem sempre um ar tão bem disposto e ativo  mas hoje notei-a tão embaixo, tão murchinha" e eu não pude fugir e lá lhe disse, quase a chorar, que aquele caso era muito complicado e que podia ser eu sentada naquela cadeira. Acontece o inesperado: ela abraça-me durante uma eternidade estranhamente reconfortante. Disse-me que podia mudar de caso, que não precisava de o acompanhar se fosse demais para mim, mas eu quero levar isto até ao fim, por muito que custe, porque o caso é muito interessante e porque quero perceber também os meus limites, quero testar-me. 


No meio disto tudo eu já só penso como é que é possível, de tanta gente a precisar de ajuda e de tantos alunos na mesma situação de avaliação que eu, ter-me calhado um caso assim. Se isto não é destino, não sei o que será. 

5 comentários:

  1. Não acredito nada em coincidências, portanto... Força!

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  2. Não interessa perceber porque te calhou a ti. Interessa que, se decidiste continuar com ele, tires as lições e aprendizagens que deves tirar! Beijinho*

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  3. Caramba, deve ter sido uma experiência pesada.

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  4. Sabes uma coisa? Antes de escreveres este texto, eu já achava que essa pessoa a quem te referes é das melhores pessoas que podes encontrar lá na faculdade. Isto por muito que a minha experiência com ela tenha sido muito curta e num contexto diferente do que esse em que agora estás. Agora reforcei esta ideia. Não podias estar melhor entregue com ela. Mas entrega-te ao caso só até onde fores capaz. Quando sentires que já não é a psicóloga que lá está, mas muito mais a pessoa, será uma atitude digna de uma psicóloga profissional e com a ética no sítio retiraras-te. Por outro lado, a equivalência de experiências pode ser útil às duas. E lembra-te, se algum dia chorares também não tem tanto mal quanto possa parecer. Pode até ser muito pertinente.

    P.S. - Se soubesse disto tinha dobrado o abraço :)

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    1. eu já a adorava e tinha uma admiração enorme por ela, agora tudo se reforçou. Estou muito contente por poder ter esta experiência com alguém como ela ao meu lado. muito mesmo.

      Oh, não tem mal. Já foi bom assim :)

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